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Entre Raul, Novas e Pimenteiras…

Ficaria eu prescrito aos secretos pensamentos de uma língua que não domino? Qual é o papel do meu egoísmo? (lembro de Raul agora).
É somente na solidão das pimenteiras e nos vinte minutos de pausa que encontro aquilo que chamamos de paz. Talvez inconscientemente o calor infernal da casa de vidro me lembre as noites de verão em que, lavado em suor, não conseguia dormir mesmo com a janela aberta e o ventilador ligado no número três.

Retomada?

Tem dias que a internet parece tão vazia. Momentos de redescobrir e quem sabe retomar um velho blog abandonado. Distante quase dois anos do portguês acho que perdi um pouco o talento com minha doce língua materna que, se não me engano, passou por uma reforma ortográfica. Escrever em alemão, quem sabe um dia, hoje não me causa o mínimo de prazer. Gosto de ler os filósofos que um dia estudei no seu idioma original, ouvir as pessoas conversar também é legal, lembra o opa e a oma sentados na varanda dissecando a vida dos outros naquele dialeto que hoje tem andado escasso na considerada cidade mais alemã do Brasil.

Para não dizer que não postei (Peterson Quadros)

Sábado a noite o apartamento se encheu de movimento. O vento sul trouxe uma frente fria daquelas. Lá fora estava tudo gelado, como no auge inverno, porém o fim de setembro se aproximava. Tempos de loucas estações, vividas em um mundo cada vez mais quente. Quem sabe fosse hora de acordar?
Dentro do meu casulo abri uma garrafa de vinho nacional. Mistura de dois tipos de uvas americanas. Encorpado, sabor sofisticado e razoavelmente barato, encontrado facilmente no supermercado ao lado do condomínio. Às vezes é bom deixar de lado os chilenos, argentinos e uruguaios para apreciar a nova onda das vinícolas do sul do Brasil.
Fiz isso na cozinha. Lugar onde a “química” acontece. Ali percorremos o caminho de nossa ancestralidade. Tudo é ritualístico. No mundo contemporâneo talvez o espaço possa parecer algo meramente mecânico, elétrico, apático e asséptico, mas aqui em casa gosto de acender o fogão e apreciar a chama azul, sentir o calor que se contrapõe ao momento em que você abre a geladeira e se depara com aquele armário glacial soltando congelativas fumacinhas.
Naquela noite, sábado comum, programa de sempre, a taça transbordava enquanto eu preparava o jantar com leve preguiça, depois da prolongada sesta. Um pouco preocupado com meu peso e também com a praticidade, optei por uma bela, leve e nutritiva canja. Comecei a cortar os legumes olhando o movimento circular dentro da máquina de lavar roupas, que naquele momento centrifugava minha blusa de lã preferida. Simone navegava na internet e falava com sua mãe ao telefone. As tartarugas dormiam tranqüilas e das caixinhas de som do computador, Barão vermelho, ainda na época de Cazuza, percorreu todos os ambientes.