Hoje fugi da floresta

Hoje fugi da floresta em direção a cidade. Deixei as árvores para ver prédios e abandonei os pássaros para contemplar transeuntes.
Tomei um café na cafeteria do museu barroco e passei minutos a observar o mundo ao meu lado. Um senhor elegante a mergulhar nas páginas de um jornal, uma estudante loira de calças jeans e blusa rosa a digitar, provavelmente um trabalho acadêmico, no laptop. Eu degustei, gole por gole, a bebida que tanto amo e pedi mais uma xícara. Ao olhar para o teto do estabelecimento, um feixe de luz atravessava a vidraça. Um sinal de que o sol brilhava do lado de fora. Assim que terminei, peguei a jaqueta, o chapéu, deixei três euros de gorjeta para a simpática atendente e saí em busca de inspiração.
As ruas de uma cidade são lugares cheios de magia. Esquinas, lojas, ladrilhos, sons, movimentos, personagens… Ontem, o sol tornou-se protagonista. Deixou a ladeira dourada, cobriu-nos com sua quentura ainda tímida. Passei minutos a lagartear em um prosaico banco de madeira, dividido com Gabriel e um estranho.
A subir o aclive um casal passeava com seu cão, um senhor empurrava a bicicleta e duas jovens conversavam animadamente sobre as expectativas infinitas de um sábado à noite…

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O drama do rei

Ele estava resfriado e acreditava que iria morrer. König é um dos moradores aqui da casa Jawlensky e um dos seres de quem eu cuido. A tradução literal do seu nome em português é Rei. Confesso a vocês que ele veste a camisa da sua alcunha. Tivemos no passado sérios embates pelo fato dele não querer amarrar o cadarço. Isso era serviço de quem lhe devia servir. Tive que fazê-lo entender que somos uma família e para sobrevivermos precisamos nos ajudar mutuamente…
Enfim, quarta-feira encontrei-o na cama a se preparar para o fim. Entrei no quarto, cumprimentei-o alegremente e como resposta obtive apenas um sussurro “vou morrer…”
Pensei em chamar um médico, mas conheço meu rei. Sentei-me ao pé da cama e, como um treinador de futebol, disse para ele não se entregar, pois o juiz ainda não havia apitado o fim do jogo.
Ele resistiu… “não sei se consigo, eu estou a ver o fim do túnel”.
Eis que me chamam da cozinha pois havia alguém a ter comigo. Deixo o quarto e atendo o rapaz que faz a entrega das bebidas. Quando volto, para minha surpresa, o rei, de roupão listrado, sentado confortavelmente, com o seu smartphone em mãos a jogar “Clash ofClans“. Ele me olha, sorri e diz em voz alta… “sobrevivi, obrigado. Agora já podes me trazer um sanduíche e chocolate quente.”
Obviamente eu documentei, para vocês,  o drama do rei…

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O Rei em seus “últimos” minutos.

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O Rei “ressuscitado” a jogar Clash of Clans…

Os bancos escondidos de nossas vidas

Todos nós temos nossos esconderijos. Mesmo os presos políticos enjaulados por suas ideias, em minúsculas celas, tem seus lugares secretos. Para eles, a alma é o refúgio oculto.
Eu vivo em uma casa com dezoito pessoas. Os encontros constantes são uma fatalidade. Embora sejamos, em maioria, seres sociais, a solidão temporária ocupa um papel fundamental em nossas vidas. Enquanto estamos a sós com o cosmos, tendemos a deixar a eterna interpretação sartriana de lado e acabamos por ser honestos com nós mesmos.
Quando penso em solidão, me lembro das poltronas do papai espalhadas pelas salas da classe média das gerações anos 70, 80 e 90 onde, após um dia exaustivo de trabalho ali se sentavam os homens de família. Eles transcendiam a realidade tomando cerveja, vinho, conhaque… Em determinado momento da madrugada, antes de adormecerem, deparavam-se consigo mesmos. Muitos se suicidaram, a grande maioria continuou a repetir-se, infelizmente um número reduzido acordou e fez acontecer.
Aqui no Richthof eu também tenho meus escapes, encontros secretos com o meu próprio eu. Muitas vezes, sentado nesses lugares eu medito, outras vezes me deixo levar por pensamentos soltos que borbulham em emoções. Tem dias que aproveito para ler partes de um livro ora em alemão ora em português. Em espaços esporádicos de tempo um ou outro aldeão passeia ao longe. Com a coluna ereta, entre o céu e a terra, em assentos simples de madeira, completamente sozinho, me sinto pleno. Queria transformar minutos em horas, horas em dias, dias em semanas e semanas em uma vida, só…

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Quando a minha fé encontrou Kant

Faz um mês que o açúcar refinado deixou a minha vida e, tal como a dor insuportável de um amor não correspondido, eu chorei. Sentado em um vaso sanitário, trancado em um minúsculo toalete, com o mundo lá fora a girar, gritar e a se contorcer, meus soluços abafados permaneceram entre sóbrias quatro paredes.
Sem o açúcar e aos prantos naquele espaço sem janelas terminei de ler, pela segunda vez, a metamorfose de Kafka. Ao contrário da apreciação que fiz do tal livro na adolescência, o drama vivido pela família de Gregor me foi indiferente.
Um punho nervoso me obrigou a voltar a realidade. Fiz, com muita pressa, aquilo que eu tinha que fazer. Puxei a descarga, lavei e desinfetei as mãos com álcool e parti. Acabei em um amplo supermercado que se abria diante dos meus pés em corredores entupidos de mercadorias.
Catei, juntei, recolhi, somei tudo em um carrinho de compras. Pouco antes de chegar ao caixa prateleiras infindáveis ofereciam-me balas, chocolates, biscoitos. Um aperto fulminante dominou meu coração. Não sabia se era infarto ou tentação luciférica. Lembrei-me do final de 2016 quando eu era capaz de, sem culpa, devorar dez barrinhas de chocolate de uma só vez. Uma hora ou outra eu teria que superar o desejo. Puxei o ar e tive fé, afinal ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam. Lentamente vi os biscoitos recheados ficarem para trás, os gofres belgas, as balas de goma, os pacotes gigantes de Haribo, os chocolates branco, ao leite, meio amargo… Tudo passou e quando, ainda mais forte, olhei para trás, a minha fé encontrou Kant, afinal eu apenas sou livre quando não faço aquilo que eu muito quero.

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Quando a neve começa a cair

Não tenho como negar minha predileção pelos dias frios.
A branquidão que cobre telhados, enfeita árvores e transforma o chão em um níveo tapete fofinho. O contraste com tons escuros, negros, lindos. A natureza recolhida e o sumiço das cores adentram, através dos sentidos, meu enfastiado corpo e ali sentam e conversam com a minha alma. Gosto de ver as fumacinhas de minha respiração e sentir os floquinhos gelados em minhas bochechas. Tudo fica vazio, os pássaros não cantam, as folhas não caem mais, as pessoas evitam o mundo externo, os bichos se escondem.
A tristeza me acompanha em muitas caminhadas. É, no entanto, uma tristeza primitiva, um sentimento que, em partes, pertence ao inverno. Sentir-se só, além do mais, triste é a única e verdadeira possibilidade, como disse Heidegger, de se autoconhecer.

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