Menino

Era um menino valente e caprino, cabelos curtos, rostos bonito, uma cicatriz na sobrancelha esquerda. Falava um português torto, estava algemado, havia matado. Sua fala e seus gestos deixavam claro que a vida humana lhe era indiferente. Alguém o jogou no Youtube e de lá acabou por se transformar em um “monstro celebridade” no Facebook.
Centenas de comentários pediam a sua execução. As pessoas se referiam a ele como lixo humano, traste, imundice …
Diante do Smartphone que o filmava, ele parecia não ter medo, ódio ou qualquer outro sentimento que nos faz gente. Se tiver oportunidade mataria novamente, disse e sorriu.
Quando li e assisti, chorei de soluçar.
Chorei por aqueles que morreram, pelas famílias que ficaram com o vazio, pelos filhos sem pais, pelos maridos sem mulheres, pelas crianças cuja vida lhes foi prematuramente roubada.
Peço perdão a vocês que leem o vinhetas, mas chorei demasiado mais pelo rapaz.
A minha alma se retalha ao encontrar alguém que não provou a mais nobre virtude.  Existir sem experimentar o amor é algo assombroso, triste, demasiadamente triste.
Se tal menino tivesse tido alguém que o amasse, que o beijasse, que sorrisse aos seus gracejos de bebê. Se ele tivesse aprendido a contemplar a flor, se ele tivesse descoberto a alegria de ver um bichinho brincar, eu tenho certeza que tudo seria diferente.
Não quero que ele morra, desejo para ele, ainda em vida, a descoberta do amor. Isso, infelizmente não traria mais as pessoas que ele mesmo daqui tirou, mas lhe daria a magnanimidade de pedir, de forma verdadeira, perdão.

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Quatro anos

Há quatro anos o nosso pedaço de mundo estava coberto de neve. Hoje faz sol e a primavera bate a nossa porta. Se ficarmos em silêncio conseguimos ouvir os seus passos.
Gabriel, que há quatro anos chorou o seu primeiro inverno, hoje sorri a sua quarta primavera. É legal ter alguém para chamar de filho… Gosto de dar-lhe banho, contar histórias, brincar de carrinho e casinha, jogar bola, dormir agarrado. Gosto de levá-lo para o jardim de infância e responder as mil perguntas que brotam em um simples percurso. Eu gosto quando ele me tira para dançar, quando fazemos bagunça pela casa inteira e quando cantamos desafinados.
São quatro anos de parceria e aventuras mil… Passeamos pelos Alpes, curtimos juntos a costa da Croácia, sofremos com a neve em Santa Catarina, enfrentamos os ventos gelados do mar Báltico, conquistamos a Itália, a Dinamarca e a Áustria.
Juntos somos engenheiros, carpinteiros, pintores, agricultores, jardineiros… tudo isso em nosso minúsculo pedaço de mundo chamado Richthof.
Eu sou grato por vê-lo crescer e participar de tudo isso. Se as coisas são mesmo como os antroposóficos acreditam, muito obrigado por ter me escolhido como pai.
Sei que esse tipo de texto virou clichê, mas existem coisas que simplesmente são assim.

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Hoje fugi da floresta

Hoje fugi da floresta em direção a cidade. Deixei as árvores para ver prédios e abandonei os pássaros para contemplar transeuntes.
Tomei um café na cafeteria do museu barroco e passei minutos a observar o mundo ao meu lado. Um senhor elegante a mergulhar nas páginas de um jornal, uma estudante loira de calças jeans e blusa rosa a digitar, provavelmente um trabalho acadêmico, no laptop. Eu degustei, gole por gole, a bebida que tanto amo e pedi mais uma xícara. Ao olhar para o teto do estabelecimento, um feixe de luz atravessava a vidraça. Um sinal de que o sol brilhava do lado de fora. Assim que terminei, peguei a jaqueta, o chapéu, deixei três euros de gorjeta para a simpática atendente e saí em busca de inspiração.
As ruas de uma cidade são lugares cheios de magia. Esquinas, lojas, ladrilhos, sons, movimentos, personagens… Ontem, o sol tornou-se protagonista. Deixou a ladeira dourada, cobriu-nos com sua quentura ainda tímida. Passei minutos a lagartear em um prosaico banco de madeira, dividido com Gabriel e um estranho.
A subir o aclive um casal passeava com seu cão, um senhor empurrava a bicicleta e duas jovens conversavam animadamente sobre as expectativas infinitas de um sábado à noite…

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O drama do rei

Ele estava resfriado e acreditava que iria morrer. König é um dos moradores aqui da casa Jawlensky e um dos seres de quem eu cuido. A tradução literal do seu nome em português é Rei. Confesso a vocês que ele veste a camisa da sua alcunha. Tivemos no passado sérios embates pelo fato dele não querer amarrar o cadarço. Isso era serviço de quem lhe devia servir. Tive que fazê-lo entender que somos uma família e para sobrevivermos precisamos nos ajudar mutuamente…
Enfim, quarta-feira encontrei-o na cama a se preparar para o fim. Entrei no quarto, cumprimentei-o alegremente e como resposta obtive apenas um sussurro “vou morrer…”
Pensei em chamar um médico, mas conheço meu rei. Sentei-me ao pé da cama e, como um treinador de futebol, disse para ele não se entregar, pois o juiz ainda não havia apitado o fim do jogo.
Ele resistiu… “não sei se consigo, eu estou a ver o fim do túnel”.
Eis que me chamam da cozinha pois havia alguém a ter comigo. Deixo o quarto e atendo o rapaz que faz a entrega das bebidas. Quando volto, para minha surpresa, o rei, de roupão listrado, sentado confortavelmente, com o seu smartphone em mãos a jogar “Clash ofClans“. Ele me olha, sorri e diz em voz alta… “sobrevivi, obrigado. Agora já podes me trazer um sanduíche e chocolate quente.”
Obviamente eu documentei, para vocês,  o drama do rei…

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O Rei em seus “últimos” minutos.

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O Rei “ressuscitado” a jogar Clash of Clans…

Os bancos escondidos de nossas vidas

Todos nós temos nossos esconderijos. Mesmo os presos políticos enjaulados por suas ideias, em minúsculas celas, tem seus lugares secretos. Para eles, a alma é o refúgio oculto.
Eu vivo em uma casa com dezoito pessoas. Os encontros constantes são uma fatalidade. Embora sejamos, em maioria, seres sociais, a solidão temporária ocupa um papel fundamental em nossas vidas. Enquanto estamos a sós com o cosmos, tendemos a deixar a eterna interpretação sartriana de lado e acabamos por ser honestos com nós mesmos.
Quando penso em solidão, me lembro das poltronas do papai espalhadas pelas salas da classe média das gerações anos 70, 80 e 90 onde, após um dia exaustivo de trabalho ali se sentavam os homens de família. Eles transcendiam a realidade tomando cerveja, vinho, conhaque… Em determinado momento da madrugada, antes de adormecerem, deparavam-se consigo mesmos. Muitos se suicidaram, a grande maioria continuou a repetir-se, infelizmente um número reduzido acordou e fez acontecer.
Aqui no Richthof eu também tenho meus escapes, encontros secretos com o meu próprio eu. Muitas vezes, sentado nesses lugares eu medito, outras vezes me deixo levar por pensamentos soltos que borbulham em emoções. Tem dias que aproveito para ler partes de um livro ora em alemão ora em português. Em espaços esporádicos de tempo um ou outro aldeão passeia ao longe. Com a coluna ereta, entre o céu e a terra, em assentos simples de madeira, completamente sozinho, me sinto pleno. Queria transformar minutos em horas, horas em dias, dias em semanas e semanas em uma vida, só…

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