Arquivos da categoria: Vidinha cotidiana

Noite no porão

A noite é, em si, algo místico. A necessidade de uma luminosidade artificial para nos livrar da penumbra transfigura tudo. É a prova cabal da fraqueza de nossos sentidos. Não somos corujas e nem morcegos. A noite com suas luzes criadas, pálidas, quentes, amareladas, brancas, nos deixa em intimo contato com o sintético.
Claro que precisamos da luz natural tal como o lagarto que, através dela, mantém-se ativo. Temos a necessidade do dia para nossas funções vitais, mas é o ocultismo noturno que nos transforma em artistas. As ideias mais brilhantes, ignóbeis, estapafúrdias nos surgem quando, no céu, as estrelas estão a brilhar.
Ontem, depois de um curto passeio, tive uma idealização… aproveitar a magnitude da noite para, com ajuda de algumas lâmpadas incandescentes, arrumar e pintar o corredor do nosso porão.
São quase cinco e meia. Logo a manhã se fará linda e eu amargurarei as consequências de minha impensada força de vontade.

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Sol de primavera

Embora as árvores ainda estejam peladas e as temperaturas não ultrapassem os dez graus Celsius, a primavera aqui no Richthof se manifesta de forma tímida, porém plena.
Enquanto acompanho Thommy no seu caminhar de volta para casa, sinto a força, ainda que tênue, de um sol distante. O céu pesado e cinzento dos últimos quatro meses se abre em uma mescla azul e amarela.

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A pluralidade infinita de flores que experimentei em boa parte de minha vida subtropical esvaiu-se aos trinta. Hoje, dada a escassez, em boa parte do ano, de uma flora colorida e cheirosa, aprecio com demasiada atenção o encontro com esses seres essenciais para a alegria humana.
São mais ou menos quatrocentos metros entre a marcenaria onde Thommy trabalha e a casa Jawlensky onde moramos.
Apesar de algo quotidiano o caminhar entre a imensidão dos alerces é um fenômeno incrivelmente único. Thommy, com seu andador sem tração alguma, é em si um ser incrivelmente lento. Estar com ele é ganhar de presente a possibilidade da contemplação do imperceptível.
Foi com Thommy, ou melhor, com o tempo quase infinito que ele me deu que aprendi a olhar as margens prosaicas do caminho, os cantos comuns e obsoletos.
Penso que é por isso que, dentre todos aqui da minha excêntrica família, este ano eu fui o primeiro a descobrir os ninhos pitorescos de uma estação que ainda está por vir.

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Palco giratório – Landesbühne – Siegfried Lenz

Hoje é dia de Teatro no Campus. Faz quatro anos que meu grupo subiu no palco e encenou  Leôncio e lena de George Büchner. Hoje o curso Ulmen apresentou uma novela de Siegfried Lenz chamada Palco giratório (Landesbühne).

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Um grupo de presos aproveita a apresentação de uma peça teatral para fugir da cadeia. Eles roubam uma velha Kombi e se dirigem para o interior do país. Ao chegarem em uma pequena cidade eles fingem serem atores, tornam-se amigos do prefeito e são aceitos com enorme carinho pelos cidadãos. O prefeito que almeja incentivar a cultura local os convida a organizarem um museu municipal. Eles aceitam a empreitada no intuito de, com um pouco de dinheiro, fugirem para Dinamarca, pois lá os subsídios sociais do governo são enormes. Após a bem sucedida inauguração do Museu eles são convidados a receber as medalhas de honra do município. Infelizmente, no dia em questão eles são descobertos e obrigados a voltar para a cadeia.

No meio da encenação tivemos, como de costume, uma pausa bastante gelada…

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Agora vem a parte, que em minha opinião, é a mais significativa e bonita da história. Durante todo o tempo fica evidente uma profunda amizade entre João (Johannes) e o professor Clemente (Clemens). João planeja novamente uma fuga mas não chega a empreende-la pelo valor que dá ao amigo de cela.

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Eu e os livros cheios de coisas

Tem uma cena no filme a Cidade de Deus que eu acho fantástica. João Pequeno e seus comparsas estão em um cômodo imundo a procurar artigos sobre eles mesmos nos periódicos da cidade. Um deles no canto folheia atentamente o jornal. De repente João Pequeno pergunta se ele sabe ler. O rapaz então responde “eu só sei ler as figuras”.
Quando, morando aqui na Alemanha assisti ao filme, minha identificação com a tal cena foi direta e indiscutivelmente profunda.
Triste, em um sofá precariamente iluminado, desnutrido da capacidade de compreender uma só palavra do vasto mundo tipográfico alemão eu contemplava horas seguidas as figuras contidas no “Schlitzer Bote” e tentava, a partir delas, montar um panorama do mundo.
A minha própria incapacidade gerava em mim um certo desconforto, uma vergonha inata. Eu, no entanto, era ambicioso, queria ler livros e não jornais. Em vão procurei pelas ruas da cidade de Fulda livros que eu pudesse entender.
Eis que em uma ensolarada tarde de outono adentrei em uma minúscula livraria. Meus olhos percorreram prateleiras, analisaram cestos, curtiram preços. Na esquina entre “Krimi” e ” Fitness” um título incomum “Wimmelbücher”. Tal como um cowboy saca o seu revolver, rapidamente tirei do bolso meu minidicionário e verifiquei o significado de tal palavra. “Livros cheios de coisas”. Que enigma a ser decifrado…Estiquei o braço, puxei um exemplar para ver o que havia dentro, e, assim o encanto se fez.
Tantos elementos e histórias a serem curtidas sem a necessidade de uma só palavra. A possibilidade por viajar em paisagens mundanas, a celebração dos detalhes, o cultivo da atenção…
Rotraut Susanne Berner e os seus livros sobre as estações tornaram-se para mim um refúgio transcendente a materialização da filosofia em que patino sem sair do lugar.
Tem vezes que sou obrigado a parar o meu mundo e passar horas a “ler” e “reler” aqueles livros cheinhos de coisas.

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O tempo e a inveja

Somos todos tão diversos. Estamos sempre falando sobre isso apesar de não entendermos o seu significado mais profundo. Somos condicionados a aceitar coisas que em nosso íntimo não concordamos. O constante mascaramento do nosso ser é, eu sei, tema velho, porém jamais batido.
Na verdade eu queria escrever sobre o meu encanto pela diversidade climática do planeta e pela constante insatisfação humana.
Passo horas em meu globo a admirar o Equador esse traço imaginário que divide a Terra em dois hemisférios tão distintos. Eu, como o saudoso Mujica, também sou do sul e venho do sul. Morei algum tempo um pouco acima da esquina do Atlântico com o Rio da Prata. Um lugar que ainda hoje tenho como lar.
Aos trinta emigrei para o norte e desde então, um dos meus passatempos prediletos, com meu pai ao telefone, é comparar e reclamar do tempo. É a matéria-prima das nossas conversas, o motor inicial dos nossos diálogos. Assim que ele reconhece a minha voz, se põe logo a perguntar como está o clima por aqui. Em tempos de inverno alemão eu falo da neve, do frio, da escuridão e das árvores peladas. Ele, do outro lado, escuta, suspira e murmura a sua inveja pelo fato de eu estar com os pés gelados e andar de touca.
Terminada a minha lamuriosa explanação eu o indago sobre os ares subtropicais. Meu pai, em tom fúnebre, fala do calor infernal, do protetor solar 1500, das trovoadas parecidas com tufões, da astronômica conta de luz gerada pelo ar condicionado obsoleto. Eu escuto tudo calado, pensando na inveja que sinto de tomar um “sapecão”, de dormir somente de calção, de acordar encharcado, abrir a janela do apartamento e sentir aquele bafo atmosférico cheio de valentes mariposas e capaz de assar uma batata.
A loucura dessa história toda é que basta um dia no outro hemisfério para esquecermos tudo o que desejamos e sentir uma saudade bruta daquilo que não temos.

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