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Tudo vaza

Vaza a nossa casa! Nossas torneiras pingam enquanto chuveiros gotejam. Tem vezes que até o vaso sanitário deixa escapar alguma água. Todos os vazamentos têm seus heróis e vilões. No caso das construções, o encanador é o salvador.
Vaza a nossa intimidade! Aquela foto ou vídeo de um momento íntimo que, sem consideração, é repassada em grupos de WhatsApp para o regalo de estúpidos machões.
Vaza o nosso corpo! Começa quando, em um espirro, molhamos sem querer, a calça. Um dia percebemos que nos tornamos incontinentes.
Vaza o prazer! Quando nos apaixonamos e, preferencialmente junto com o outro, gozamos o amor.
Vaza a informação! É o fato de deixar escapar de forma intencional ao grande público uma informação sigilosa ou pessoal no intuito, improvável, de ajudar ou, muito provavelmente, prejudicar alguém.
Por exemplo, quando as conversas do Lula e Dilma foram vazadas, opositores e oportunistas chegaram ao orgasmo.
A forma como o diálogo foi colhido, legal ou ilegalmente, era, como bradavam dezenas de milhares de torcedores da seleção brasileira de futebol masculino, irrelevante.
Bom, um dia, sempre existe…”um dia”, alguém vazou conversas de moral duvidosa entre o então herói da seleção brasileira de futebol masculino Sérgio Moro e seus comparsas, entre eles o Daltan.
Agora, para os nossos agressivos Hooligans de estimação, com suas camisas canarinho, vazar tais diálogos, mesmo sendo informações altamente comprometedoras, é algo ilegal e não pode ser utilizado como prova.
Bom, hipocrisia em nosso momento atual, é a sexta estrela a ser estampada em nosso áureo uniforme.
Enfim, uns são transformados em heróis nacionais por seus vazamentos enquanto outros, pelo mesmo motivo, deveriam ser deportados.

Meu (ex)amigo matou o Pumba

Nos encontramos pela primeira vez no jardim zoológico. Nós nos criamos ali pelas ruas de Pomerode. Eu num canto, ele noutro. Frequentamos o mesmo colégio e tivemos, em comum, muitos professores. Ele em uma turma, eu, mais velho, em outra.
Uma professora de biologia foi quem nos apresentou.
Na época o nosso zoológico era pequeno e estava a sair de uma longa crise.
O marido dela era o veterinário do lugar. Ele recebeu Magal e a mim com grande alegria.
Magal era um sujeito genial. Loiro de cabelos compridos, magro, tinha olhos grandes e curiosos, além disso tinha um respeito e um amor incondicional por aquilo que o senso comum alcunha por natureza.
Certa vez foi o escolhido para ir junto com o veterinário buscar um filhote de lontra que havia sido resgatado pela Polícia Ambiental. Magal tornou-se amigo do bichinho e contribuiu de maneira significativa para a improvável sobrevivência do mesmo. Era uma espécie de Herói Mirim; alguém que teria um futuro brilhante e certamente contribuiria positivamente para um mundo melhor.
Bom, o tempo passou, eu saí da cidade e, eis que quase duas décadas depois eu o reencontro no Facebook. As fotos de uma praia paradisíaca em Porto de Galinhas, Chapéu-panamá, camisa de linho branca, uma mulher loira em quase todas as imagens, além de muitas declarações melosas, indicavam que o meu amigo havia se casado. No entanto seu rosto havia mudado. Os olhos continuavam grandes, mas já não havia curiosidade, o rosto havia enrijecido e mesmo sorrindo a impressão que dava era de estar diante de um bloco de concreto.
Eu estava prestes a escrever uma carta para ele quando se iniciou o funesto processo eleitoral de 2018. A trágica eleição trouxe à tona seu (novo) caráter. De repente Magal passou a postar fotos com armas, começou a ofender amigos que pensavam diferente dele. Palavras de baixo calão foram proferidas. Respaldava seus discursos misóginos, machistas, racistas, espúrios em essência, no evangelho.
Entre tantos rompimentos que tive no ano anterior, por algum motivo, esqueci de excluí-lo da minha lista de amigos. Eis que semana passada, após muito tempo, Magal volta a postar fotos daquilo que havia se tornado. Dessa vez cruzou o Atlântico e chegou ao magnânimo continente Africano.
Tal como um modelo (do mal) postou imagens suas com diversos rifles. Grandes, precisos, poderosos, mortais.
Em pose de ataque, postou fotos em cima de Jipes modernos, ao lado de sádicos turistas brancos a fazer um autêntico safari africano. Logicamente, como pano de fundo, trabalhadores negros garantiam a segurança e o bem-estar daqueles que impulsionavam o turismo local.
A cereja no topo da torta veio na última imagem antes de eu deletá-lo… Um enorme javali exaurindo sangue pelas narinas, todo furado por balas jazia no chão. Em cima do bicho, um Magal imponente com roupas camufladas fazia cara de mau e exibia seu rifle. Talvez meu ex-amigo não consiga gerar a vida, talvez ele nem queira isso, pois o que sacia sua alma de verdade é o poder que ele tem de tirá-la.

As partes mais saudáveis do suíno

Fui julgado e condenado! Por sorte não foi a excelentíssima senhora Hardt a emitir minha sentença, pois ela não saberia diferenciar o Peterson do Quadros. Muito menos o senhor Moro que transformou a Metamorfose Ambulante do Raul em um hino do mau-caratismo, pois tudo que diz, depois desdiz, fala o oposto do que havia dito antes e assim vai sendo escrita a trajetória desse sujeito pusilânime que entrará para os anais da História como uma das maiores vergonhas do nosso já tão caduco judiciário. 
Na verdade eu fui julgado e condenado no exterior e na pior de todas as instâncias, a saber, a instância popular alemã, localizada, como sempre, em uma mesa de bar. Me perguntaram: Ei Brasileiro, o que se come no Brasil? 
Orgulhoso, detalhei em minúcias, todos os passos de um bom churrasco, falei de papaia com cassis, pão de queijo, farofa, aipim, carne de sol… Todos se mostravam interessadíssimos e, sem exagerar, pareciam estar com água na boca. 
No intuito de triunfar no final, me embestei em contar sobre o genuíno prato brasileiro: a feijoada. 
Até então, todos sorridentes. Parece que sentiam o lavar dos grãos, a panela de pressão a zunir, o barulhinho da cebola fritando, o focinho do porco, as orelhas, o rabo. 
De repente, a transfiguração dos rostos. Do sorriso ao nojo em fração de segundos. 
Que horrível! Que porcaria! Que insanidade! Aqui na Alemanha comíamos isso nos pós-guerra, agora não mais. Somente as partes mais saudáveis do suíno são vendidas. 
Cabisbaixo, com certa vergonha, tentei remendar, dizer que faz tempo que eu troquei a carne pelo brócolis e que o prato também fica delicioso com vegetais. Nada adiantou, todos levantaram e foram embora. 
Passei dias me sentindo o mais primitivo dos seres. Um homem das cavernas que um dia comeu a orelha de um porco e chupou os ossinhos do rabo. 
Um alemão não faria isso! Comeria uma bisteca orgânica. Puro engodo! Minha absolvição veio hoje ao fazer compras. Olhando as prateleiras do Supermercado me deparei com algo que os alemães comem e que, ao meu olhar, está muito além da orelhinha suína… Espetinho de rins de porco, ao molho temperado, pronto para ser servido. 
Bom, comprei uma lata e estou indo para o bar pedir explicações sobre “as partes mais saudáveis do suíno”.

A culpa é desses maconhados sem-vergonhas

Maconhado é, sem dúvida nenhuma, um superlativo. Maconheiro é adjetivo pejorativo miúdo. Coisa de “estudante universitário”. Se o sujeito for preconceituoso como parte da minha parentada, por exemplo, vai completar a frase com um típico “de humanas”, depois vai soltar uma risada. Já o maconhado não tem mais jeito. Transcende o mero fumar maconha. É alguém possuído, um meliante, um destruidor da moral e dos bons costumes.
Tenho um tio, do tipo que gosta de beber, cozinhar (metido a gourmet) e falar mal dos outros, que vive na varanda a olhar para a rua e não hesita em rotular os pobres transeuntes de maconhados. Segundo ele, o mundo está perdido. Tudo culpa, lógico, dos maconhados.
Comer na casa dele é aguentar a televisão no volume máximo em algum programa sensacionalista recheado de gente que matou gente. Você mastiga o pão ouvindo o apresentador tendo um ataque de cólera, pedindo para “botar o vagabundo na tela”. Meu tio vai ao delírio, parece eu ao ver o Avaí fazer um gol. Ele abre os braços, gesticula, aponta o dedo para tela e sentencia “tá vendo, tá vendo, eu disse, é maconhado!!!”
Quando seu candidato ganhou a eleição, ele chorou de alegria. Parecia que tínhamos ganhado a Copa do Mundo. Dormiu abraçado ao seu trinta e oito de estimação, pois agora, como me disse, os maconhados seriam escorraçados de vez do planeta.
Meu tio é também um anticomunista, porque comunista é (em negrito) maconhado. Karl Marx foi maconhado (ponto de exclamação proposital)! Lenin foi maconhado! Chomsky ele não conhece, mas eu, seguindo o seu pensamento, sei que tenho a autorização para, em seu nome, dizer: é Maconhado! Frei Betto, Leonardo Boff, Madonna, tudo, mas tudo mesmo… Maconhado! Manuela D´ávila, uma maconhada igual a Dilma. E o Lula? tá na cara meu… Maconhadasso, por isso que tá na cadeia, babaca!
Meu tio, por sorte, não tem Facebook nem navega pela internet, recebe somente as verdades proferidas pelos grupos de Whatsapp. Quando, pelo telefone, fala comigo sobre política, eu fico quieto, mudo de assunto, pergunto se o Floresta ganhou do Vera Cruz. Mas ele é insistente. Chega um momento em que eu peço para conversarmos sobre outra coisa, então vem algo do tipo “E aí Petson, muito maconhado na Alemanha?”
Eu confesso, tenho vontade de chorar. Ontem liguei para ele e contei que estou indo para o Brasil. Ficou felicíssimo, me pediu até uns presentes. Perguntei o que ele queria… Ah, respondeu ele, uns chás, chocolate e sei lá, algo para a cozinha…
Hoje, rodei meio estado, só para conseguir os tais produtos. Estou aqui na esperança que o meu tiozão sessentão, direitista e cidadão de bem aprecie os presentes.

Chá
Chocolate
óleo de cozinha

O celular desgraçou a minha vida

Acho fabuloso o verbo desgraçar. Embora seja sempre utilizado de forma trágica, a palavra, tal como é comumente empregada, guarda em si, pelo menos para mim, algo cômico.
Depoimentos como: a cachaça, ou, aquela mulher, ou, aquele homem, desgraçou a minha vida são comuns nos noticiários. Também uma caneta ao vazar na camisa antes da entrevista de emprego, uma pizza quentinha e deliciosa ao cair no chão sujo da sala, um vinho ao manchar um caríssimo vestido…Tudo pode desgraçar vida de alguém.
Bom, se eu pudesse escolher algo que tenha desgraçado a minha vida, eu diria que, no meu caso, foi o celular.
Celular é uma tornozeleira eletrônica. Vibra a toda hora… O dia inteirinho, mensagens do tipo: Onde você está? O que estás a fazer? Podes vir aqui um minuto? Já está terminando? Já chegou? Tudo bem? Por que você não responde? Responde! E assim é durante os 86.400 segundos que compõem o meu dia. São centenas de milhares de mensagens. Malditos banners a infestar a tela do celular, tal como uma praga de gafanhotos a devorar uma safra inteirinha.
O tempo agora é milimetricamente cronometrado (que combinação de palavras!). São quarenta e cinco minutos para ir da minha casa até o supermercado e voltar. Se demoro quarenta e seis minutos, o bicho vibra sem parar, solta seus banners de terror psicológico tal como uma metralhadora: Já chegou? Quanto tempo falta? Você está demorando! Bom, se escapo ao protocolo e entro em dúvida entre Brócolis ou couve-flor, já era.
Eu tento justificar o atraso tirando fotos comprobatórias do ato, ou pior, excedendo o limite de velocidade na volta para casa.

Infelizmente os pardais e as lombadas eletrônicas não perdoam. Estão ali justamente para agir impiedosamente sobre o nosso medo.
Quando, ao dirigir, na impossibilidade de responder um WhatsApp por risco de morte, você pensa que acabou, um velho método entra em ação: o telefonema.
Logicamente os carros modernos foram projetados para que aparentemente não haja escapatória. A porcaria do Bluetooth faz uma interconexão entre o telemóvel e os alto-falantes, além do mais, um maldito botãozinho acoplado ao volante não deixa margem para desculpas.
Quando tudo parece perdido, quando aquele wrrrft, wrrrrft, wrrrrft entra na corrente sanguínea e te deixa suando frio, tirando a sua concentração em uma estrada infestada de motoristas inconsequentes, pedestres imprudentes, semáforos, cruzamentos, ciclistas, você estica a sua mão direita trêmula e encharcada, tendo nela a única esperança de sobrevivência… O aparelho reconhece a sua digital e wrrrrft, wrrrrft, wrrrft você se encontra com Santos Dumont, agradece em oração a sua brilhante invenção e aperta de vez o milagroso botão da paz…