Arquivos da categoria: Sem categoria

Etiquetas

Minha excêntrica e enorme família produz, num único dia, mais de trinta quilos de roupa suja. Somos, ao todo, vinte e cinco pessoas morando sob um único teto.

Ali pelas oito da noite, depois das crianças dormirem, desço até o submundo da casa Jawlensky (como vocês sabem, é o nome da casa onde eu moro). No finzinho do porão, depois do quarto das máquinas, da despensa das bebidas, do quarto dos frigoríficos, da estalagem onde moram meus porquinhos da Índia, adentro em nossa lavanderia.

Os cestos estão, normalmente, cheios. Eu sorteio as peças. Lã, algodão, viscose, linho, roupa colorida, roupa clara, etc. Cada indumentária é um objeto único e necessita ser lavado como tal.

Para separar tudo corretamente é necessário ler minuciosamente as indicações contidas nas etiquetas.

A cada etiqueta, um mundo a ser descoberto… A temperatura ideal de lavagem: 30, 40, 60 ou 95 graus. Pode-se utilizar produtos à base de cloro? Como é com a secadora? É possível passar à ferro? Enfim, meras informações técnicas, mas com enorme efeito.

Confesso que no começo eu confiava na minha intuição. Simplesmente me recusava a ler.  Com o passar do tempo, fiquei sem calças e as cuecas que eu conseguia vestir transfiguraram-se em cuecas fio-dental. Mas como escreveu Sartre… O inferno são os outros! Com tantos encolhimentos e tingimentos involuntários, minha família se rebelou e passou a querer meu couro. Bom, antes de ser, como Adão (que por sorte não necessitava de vestimentas) expulso do paraíso, passei a ler as ditas.

Hoje, como sempre, já joguei algumas dezenas de camisetas, calças e moletons nas lavadoras. A Luz pálida não inibe minha sonolência e lentidão. O tédio me consome. As etiquetas não trazem nada de novo. Uma delas, no entanto, faz eu romper a inércia, tira-me da modorra na qual estou submerso…

 

Apenas lavar a frio.

Não secar na secadora.

Não passar a estampa.

Jamais bater em Pandas.

A vida e as suas surpresas.

A gente (quase) voltou

Em poucos dias embarcarei, junto com Simone, Gabriel e Helena, em uma viagem aos confins de minha própria existência.
A volta ao lar mexe com os ânimos, desperta sentimentos adormecidos, reverbera expectativas.
A euforia se mistura ao medo. A insegurança propagada pela Timeline do Facebook faz brotar, em meu coração, um número sem fim de perguntas, entre elas, a que mais me consome: Estaria o Brasil “involuindo“?
As narrativas telefônicas dominicais com meu pai exortam a violência não mais controlável. O país tropical teria sido, em vez de abençoado, abandonado por Deus?
Poderei eu, com minha família, caminhar na rua sem ser assaltado, estuprado, raptado ou morto?
Poderei eu, enquanto brasileiro nato, expor livremente minhas opiniões e argumentos, sem o medo de represálias que atentem contra minha integridade física?
Poderei eu, em um entardecer paradisíaco da Ilha da Magia, fechar os olhos e sentir o frescor do Atlântico acariciar as minhas bochechas e deixar as mais variadas partículas olfativas adentrarem minhas narinas deixando-me com os olhos em água por lembrar o quanto, algum dia, amei estar ali?
Poderei eu, com meus filhos, sentar a sombra da imponente figueira na histórica praça XV e ali contar-lhes como um dia eu conheci a mãe deles, sem o medo de ter uma arma apontada para a minha cabeça?
Poderei eu, como sempre fiz, distribuir sorrisos aqueles que não conheço, sem com isso ter a sensação de que, algum maluco do outro lado da rua, se revolte e queria partir a minha cara ao meio?
Sei que meus pensamentos são toscos, embalados por um mundo sensacionalista que tem em si o prazer absoluto de disseminar o pavor; incorporado facilmente por pessoas como eu… No entanto é lá, e, somente lá, que em alguns dias eu quero estar.

van gogh

O segredo … dos alemães

Infelizmente tal post nada tem a ver com a interessante página compartilhada todos os dias milhares de vezes no Facebook.
Eu falo somente dos alemães e seu surpreendente crescimento pós-guerra. Tanto econômico, quanto, em partes também, cultural e social.
Há praticamente uma década que eu moro no país de Brecht e, evidentemente, estou sempre a fazer comparações infundadas, prejulgamentos, análises imprecisas da cultura que escolhi para passar parte da minha vida.
Outro dia, em um desses botecos chiques, na cidade de Weimar, lugar de Nietzsche, Schiller, Goethe, entre outros CDF´s, resolvi tomar uma cerveja e curtir o entardecer na praça central da cidade e, com Simone, em divagações nada filosóficas, acabei por perguntar-me o motivo do abismo social entre o país de Walter Benjamin e o de Paulo Freire…
Qual seria o segredo dos alemães?
Em meio a infinitas indagações e teorias sem base alguma, levantei o caneco e o destino revelou aquilo que Weber, em sua sociologia, escondeu…
O essencial para o desenvolvimento completo de uma nação é, como comprova o documento “porta copo”, a distribuição gratuita de cerveja, inclusive para as crianças.

DSC03770 bier

Menino

Era um menino valente e caprino, cabelos curtos, rostos bonito, uma cicatriz na sobrancelha esquerda. Falava um português torto, estava algemado, havia matado. Sua fala e seus gestos deixavam claro que a vida humana lhe era indiferente. Alguém o jogou no Youtube e de lá acabou por se transformar em um “monstro celebridade” no Facebook.
Centenas de comentários pediam a sua execução. As pessoas se referiam a ele como lixo humano, traste, imundice …
Diante do Smartphone que o filmava, ele parecia não ter medo, ódio ou qualquer outro sentimento que nos faz gente. Se tiver oportunidade mataria novamente, disse e sorriu.
Quando li e assisti, chorei de soluçar.
Chorei por aqueles que morreram, pelas famílias que ficaram com o vazio, pelos filhos sem pais, pelos maridos sem mulheres, pelas crianças cuja vida lhes foi prematuramente roubada.
Peço perdão a vocês que leem o vinhetas, mas chorei demasiado mais pelo rapaz.
A minha alma se retalha ao encontrar alguém que não provou a mais nobre virtude.  Existir sem experimentar o amor é algo assombroso, triste, demasiadamente triste.
Se tal menino tivesse tido alguém que o amasse, que o beijasse, que sorrisse aos seus gracejos de bebê. Se ele tivesse aprendido a contemplar a flor, se ele tivesse descoberto a alegria de ver um bichinho brincar, eu tenho certeza que tudo seria diferente.
Não quero que ele morra, desejo para ele, ainda em vida, a descoberta do amor. Isso, infelizmente não traria mais as pessoas que ele mesmo daqui tirou, mas lhe daria a magnanimidade de pedir, de forma verdadeira, perdão.

antroposofia-doutissima-istock-getty-images

Quatro anos

Há quatro anos o nosso pedaço de mundo estava coberto de neve. Hoje faz sol e a primavera bate a nossa porta. Se ficarmos em silêncio conseguimos ouvir os seus passos.
Gabriel, que há quatro anos chorou o seu primeiro inverno, hoje sorri a sua quarta primavera. É legal ter alguém para chamar de filho… Gosto de dar-lhe banho, contar histórias, brincar de carrinho e casinha, jogar bola, dormir agarrado. Gosto de levá-lo para o jardim de infância e responder as mil perguntas que brotam em um simples percurso. Eu gosto quando ele me tira para dançar, quando fazemos bagunça pela casa inteira e quando cantamos desafinados.
São quatro anos de parceria e aventuras mil… Passeamos pelos Alpes, curtimos juntos a costa da Croácia, sofremos com a neve em Santa Catarina, enfrentamos os ventos gelados do mar Báltico, conquistamos a Itália, a Dinamarca e a Áustria.
Juntos somos engenheiros, carpinteiros, pintores, agricultores, jardineiros… tudo isso em nosso minúsculo pedaço de mundo chamado Richthof.
Eu sou grato por vê-lo crescer e participar de tudo isso. Se as coisas são mesmo como os antroposóficos acreditam, muito obrigado por ter me escolhido como pai.
Sei que esse tipo de texto virou clichê, mas existem coisas que simplesmente são assim.

IMG_2843