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Eleições na cidade mais brasileira do Brasil

Em certos assuntos a cidade mais alemã do Brasil nada tem a ver com o país europeu.
Muito pelo contrário, em se tratando de política partidária, Pomerode é, sem dúvida, a mais brasileira das cidades.

Lembro sempre de uma professora de artes que tive no oitavo ano. Eu, filho de estatutário, aprendi desde cedo (e com razão), o ofício de maldizer nosso ineficiente e repugnante governo. Seja ele municipal, estadual ou federal. Eis que um dia soltei a máxima de William Godwin que meu pai durante uma vida inteira entoou… “todo o governo é corrupto!”. A mulher, esposa do prefeito da cidade, não se conteve. Austera, pediu para que eu me retirasse.
Bom, soube, depois de muitos anos, que o marido da infeliz não terminou o terceiro mandato, pois fora afastado por corrupção. E pensar que eu, em minha ingênua premonição, fui, na época, suspenso por três dias. A eliminação é sempre o caminho para aquele que fala a verdade (não vamos adentrar aqui no conceito de verdade).

Quando vejo a politicalha praticada pelos deputados de nossa cidade feudal em suas infinitas reeleições percebo o quanto o nosso povo ainda é ignorante. Os dois figuras estão no poder tantos anos e tão pouco fizeram pela gente que os elegeu. Não falo dos “incentivos” aos clubes de caça e tiro. Coisa que é comum em nosso país, pois nossos políticos são, em essência, grandes “incentivadores”. Quase sempre de suas próprias finanças.  Engraçado foi ler a reportagem do portal Uol sobre políticos que aprenderam a falar alemão para conquistar a confiança do eleitor. Provavelmente no sentido de.. “Wenn Du in deinem Auto ein Bild von mir aufklebst bezahlt ich Deine Tankrechnung!

Quando soube que Ricardo e Rolf se elegeram, confesso, fiquei estupefato.
Será que nossa tão analfabeta população acordou do sono que parecia eterno?

Não que tenho esperança no Rolf da vida, pois segundo minha teoria, sua vitória aconteceu muito mais devido a mediocridade de seu oponente do que pela sua própria competência. Mas pelo Ricardo, em nosso caso, coração de colibri, eu nutro uma confiança ainda dos tempos de menino. Diferentemente do coração de Leão, o nosso parece ser honesto (contradizendo Godwin) e sensato. Foi, em um passado nada distante, um razoável e ponderado vereador. Lutou por causas justas, teve seus êxitos e merece ocupar hoje o lugar que o povo lhe concedeu.
Torço para que ele conduza sabiamente a quadriga de nossa linda cidade, assim como Apollo, quando concedeu-nos a luz do dia. Que Ricardo siga a defender a cultura como o mais nobre dos caminhos e que faça através da chamada “arte do possível” o impossível para dar as pessoas que lhe elegeram um pouco de dignidade e sabedoria.  

Para inglês não ver

Nos últimos dias tenho estado mais desperto do que habitualmente. Efeito das férias bem aproveitadas. O verão chuvoso e relativamente frio da Alemanha fez com que eu dormisse por muito tempo. Entreguei-me ao ócio nada criativo, porém muito televisivo.

Orgulhoso com a medalha de ouro de Sarah Menezes e a prata de Thiago Pereira eu passei a acompanhar os jogos com especial atenção.

Depois do primeiro dia tornei-me esperançoso e ufanista – no bom sentido- achei que o Brasil iria arrasar. Sonhei até que chegaríamos entre os dez primeiros. Fomos, no entanto, medíocres. Apesar de termos superado o número de medalhas de Pequim, um mero vigésimo segundo lugar para um país como o nosso é muito pouco.

Sei que o mundo olímpico é rodeado de sujeira. Pouco li sobre o assunto e não tenho ideia do que se passa nos bastidores, mas é fato que alguns de nossos atletas se valeram das mais ignóbeis desculpas para justificarem suas falhas. Um bom texto sobre isso é “O melhor do Brasil é a desculpa” de Marvio dos Anjos.

Aos poucos a nação verde-amarela foi desaparecendo das transmissões. Na escassez de expectativas dos últimos dias (salvo o nosso nobre herói Esquiva), Mano, Neymar e sua trupe de fracassados, fizeram de nós a piada do futebol masculino. Já havíamos sofrido com o vôlei de praia que presenteou os alemães com o ouro.

A coroação do mau êxito deu-se com a histórica derrota da equipe de voleibol masculino para a Rússia. Quanta vergonha.

Em Londres, tudo o que inglês não viu, com exceção da chamada final para a Rio 2016, foi o Brasil.



Diários de Motocicleta e Férias de Verão

Ontem assisti novamente ao filme Diários de Motocicleta do nosso pequeno gênio Walter Salles. O retrato poético de uma América Latina que passou desapercebida pelo mundo e a dor de um jovem diante de injustiças que, comparadas ao que nosso continente vive hoje, são tão pequenas, é algo que me agride e me afasta ainda mais do lugar ao qual (invariavelmente) pertenço.
Estudo para tirar a carteira de motorista europeia, já que a minha latino-americana só foi válida por seis meses. Passados quase um ano longe do volante sinto necessidade da ilusória liberdade que, nessa sociedade, só os motores permitem. O grupo de férias de verão para Berlim já foi fechado e dia onze de junho cairei na estrada com o ônibus vermelho.

Não sufoquem nossas lajotas!

uantas lajotas são necessárias para se fazer um calçamento? Bom, quem vive em nosso pequeno feudo, sabe que é preciso centenas de milhares. Transitar de carro pelas ruas e avenidas centrais de nosso município é se acostumar a dirigir uma batedeira ambulante. Você pode comprar um carro zero hoje, todo regulado e completamente silencioso, depois de uma semana o painel estará solto, cheio de ruídos estranhos e sacudindo inteiro. O mesmo acontece com quem anda de moto ou bicicleta.
Quando se estaciona e deixa o veículo, a cabeça continua chacoalhando, parece que você fica gesticulando que sim o tempo todo. É uma boa hora para se pedir algo, a mesada para o pai ou quem sabe um vale para o patrão. O efeito dura cerca de dez, quinze minutos. Varia de pessoa para pessoa, por isso se você quer algo é preciso ser rápido e aproveitar o calçamento.
Apesar de o asfalto, pelo menos na área central, ser uma reivindicação antiga do povo pomerodense, existe os ferrenhos defensores do calçamento. Já ouvi, em tempos distantes, vereador em discurso inflamado, com olhos marejados, dizendo que não é possível abafar, com o manto negro, essas pedras (acho que na concepção dele as pedras são seres vivos) que viram crescer e se desenvolver a nossa pujante cidade. Aqui, com exceção dos pequenos trechos, impostos pela indústria, asfaltar é sinônimo de assassinar.
Outro “fortíssimo” argumento é o de que essas lajotas não podem ser sufocadas ou removidas porque representam a tradição alemã do nosso município. Ano passado, quando fui para Alemanha, percorri o país inteiro na busca de uma cidade onde houvesse tantas pedras, encontrei apenas duas ou três ruas, todas históricas e onde já não circulam mais veículos. Tudo completamente diferente daqui, pois como me disse um alemão “uma tradição dessas ninguém quer!”
Agora, ser turista e passear com uma de nossas históricas charretes, no intuito de apreciar o bucolismo e a pacatez de Pomerode, por um centro asfaltado, certamente não seria tão charmoso e instigante como é sentir a ancestralidade das rodas de madeira e ferro em nosso lindo, porém desnivelado calçamento.

Pomerode, 50 anos e algumas crônicas

Ao seguir adiante você fatalmente acaba em Blumenau. No sentido inverso é só subir a serra e chegar a Jaraguá do Sul, cidade que, ironicamente para todos os pomerodenses (individuo que nasce em Pomerode), fica ao norte. Os limites urbanos são “protegidos” por dois portais, orgulho da cidade. Místicos? Dizem que sim.
É engraçado pensar que ali, no meio dessas simbólicas construções, vivem sob pesada vigilância uns dos outros, praticamente 25 mil pessoas. Um pequeno feudo moderno. Ágil industrialmente, pacato do ponto de vista social e cruel com quem não se enquadra nos modelos preestabelecidos.
Acho fabulosa uma comunidade do Orkut criada por Bianca Pedrini. “Pomerode. Nasci, cresci e FUGI”. Na verdade eu não fugi, fui embora depois que passei no vestibular, ainda com a esperança de voltar definitivamente, mas isso até agora, não aconteceu. Apareço em esporádicos finais de semana ou dedico uma semana das férias de verão para perambular entre os portais. Sempre reclamo do calor e da falta de vento, em contrapartida, no meio dessa “panela de pressão” em estilo Enxaimel, encontro gente, visito lugares e compartilho histórias.