Arquivos da categoria: A excêntrica família do Senhor Quadros

Solidão e liberdade

As pessoas se assustam quando conto que minha carga horária de vida se resume em vinte e quatro horas, sete dias por semana, sem trinta dias anuais de férias. Não tenho trabalho fixo. Sou pago para, de alguma forma, sobreviver. Richthof não é um lugar comum. A convivência intima com a loucura e com os problemas da alma entranham-se pelos meus poros até chegar a lugares inimagináveis dos meus corpos.
Daqueles que começaram comigo, muitos caíram em doença, outros fugiram, tantos morreram, poucos, porém, são os que continuam. Quando eu subi a montanha não imaginei aquilo que viria. Até então tudo era aventura, piada, deboche, insensatez. Pouco em mim era verdade e a seriedade não passava de um parente distante. Naquele pico de inverno, ao abrir a porta do carro, faltou-me o chão, e, como o passo derradeiro de alguém à beira de um precipício eu, mesmo não enxergando o fim, pulei.
Os seres fantásticos que habitam este espaço, a presença constante, as reuniões, os discursos, meditações, infortúnios, negações, a morte e a vida em uma excêntrica família foi o grande salto que dei. Estar no mundo e, ao mesmo tempo, fora dele te dá uma sensação esquisita de solidão e liberdade.

arcanjo michael

Muita gente tem questionado o fato de eu ter adotado um papagaio. Primeiro eu gostaria de dizer que também concordo que lugar de pássaro é, ou relaxando em alguma árvore frondosa, ou voando, a contrastar com um céu azul.
O caso de Niko é um pouco diferente. Nasceu na Alemanha, em um criadouro sofisticado, desses em que os animais são, aos turvos olhos humanos, bem tratados. Os bichos possuem árvore genealógica, teste de DNA e atestados que comprovam a inexistência de doenças.

papagaioAos três meses Niko foi vendido a uma senhora cujo marido faleceu. O pavor diante da solidão a fez procurar a companhia de um passarinho cuja idade mental se assemelha a uma criança de quatro anos. Após um mês de convivência a mulher adoeceu. O diagnóstico “câncer” a fez passar mais tempo no hospital do que em casa. Niko ficou triste. Não quis mais comer, não tinha lá muitas vontades. Enfim, quando obteve alta de uma internação, a idosa procurou, em vão, algum lugar “decente” para a ave. Não havia Zoológicos ou aviários que o quisessem. A dona do papagaio então escreveu sua pequena história e a fixou em um desses murais de supermercado.
Eis que, em um dos nossos pequenos almoços de mais de vinte pessoas, alguém de minha excêntrica família me trouxe o tal endereço e pediu para que eu ligasse. Mesmo contra a vontade, mas como muitos dos moradores aqui de casa sonhavam com um bichinho de estimação, resolvi averiguar.
Era um ensolarado domingo de manhã quando dirigi até a mulher. A gaiola de Niko estava em uma área de serviço, em cima de uma máquina de lavar roupas. Nós nos olhamos, ele beliscou o meu dedo e depois de alguns minutos eu voltei para casa sem ele. Quando cheguei, uma comitiva me aguardava com absurda expectativa. Sentamos juntos. Falei de ética, daquilo que acreditava sobre o direito de liberdade dos pássaros e quando, naquelas frações de segundo que mudam vidas, o tal de Niko me veio a mente e o medo de que ele pudesse ser maltratado ou mesmo morresse de tristeza em um cômodo apático de uma casa vazia, eu sentei no carro e o trouxe para nós.

niko

O gato poliglota

Tenho contado algumas histórias, escolhido alguns palcos seletos, confabulado anedotas com amigas e amigos especiais. Outro dia eu fingi ser meu próprio nome. Um Peterson sueco, um gato chamado Findus e uma quase poesia de um comediante alemão chamado Heinz Erhardt. Eu já tinha lido sobre o gato poliglota ainda no Brasil, no apartamento do Itacorubi e, durante o baile de carnaval deste ano, recontei a aventura…


Ei velho, o que você tem feito? Faz tempo que não vejo uma postagem sua no blog. 

Pois então rapaz, eu tenho feito umas e outras. Ser pai, felizmente, ainda consome a maior parte do meu dia. Gabriel com um ano e quase quatro meses faz com que eu me movimente das cinco da manhã até perto das oito da noite, sem intervalos comerciais. Ele me ajuda a cozinhar para a nossa excêntrica família, adora pegar o andador do senhor Raio de Sol e correr pela casa. Regar as plantas também está entre uma das suas atividades preferidas, isso sem contar suas incursões pela nossa despensa, “dividir” o jornal do Thommy em pedacinhos minúsculos, cheirar e organizar os sapatos dos nossos treze moradores, ficar na ponta dos pés e tocar piano, utilizar a flauta que custou uma fortuna como baqueta de bateria. A propósito, bateria no caso em questão, diz respeito as nossas panelas ou bacias. Enfim, educar alguém sem televisores ou coisa do gênero exige tempo.
Além do meu filho também entrei para um grupo de teatro amador. Apresentamos no mês passado aqui na comunidade uma peça de Karl König, chamada Sexta-feira Santa. O enredo, por sorte, bastante simples, no entanto, por conta do nosso público, tornou-se desafiador. A história se dá na Grécia, num templo dedicado a Zeus. Pouco a pouco vão surgindo pessoas doentes ou com algum tipo de necessidade especial, pois há um boato de que cidadãos com algum tipo de marca encontrados na rua seriam banidos da Polis. Ali, no entanto, eles estariam a salvo. Um navio atracado no porto de Pireus aguardava os prisioneiros que seriam deportados.
O primeiro a aparecer foi um cego desesperado. Já no Templo um surdo e um mudo escoravam-se em uma das colunas. Depois disso uma paralitica e uma mãe com uma criança com hidrocefalia, um pestilento (meu papel), um tuberculoso e mais uns tantos sofredores. Eu sei que no fim das contas os soldados nos encontram e marchamos para o navio.
Semanas depois da frutífera apresentação, dos ensaios exaustivos, da iluminação do teatro, chegou a nossa feira da primavera. Esse ano eu assumi interinamente a barraquinha de Crepes franceses. Herança deixada pelo meu amigo Otto. Vendemos em dois dias de feira, cerca de mil Crepes, tendo um faturamento para a comunidade de quase seis mil reais. Confesso que cheguei ao meu limite. Só para você ter uma ideia, foram vinte potes gigantes de Nutella, quinze quilos de queijo, trinta e seis quilos de farinha, quatrocentos ovos. Sessenta litros de leite, cinco quilos de presunto, três de salame e mais um montão de coisas.
Assim que se acabou, não deu para descansar. Era chegada a vez de se preparar para os jogos olímpicos nacionais para pessoas portadoras de necessidades especiais intelectuais, na cidade de Düsseldorf. Entre os 4800 atletas presentes o nosso grupo de Badminton estava lá. Uma semana dormindo em Colônia, acordando as seis, pegando metrô, trem, ônibus, correndo, chegando atrasado, sofrendo, competindo. No fim de tudo, muitos sonhos foram alcançados. Quatro ouros, duas pratas, dois bronzes.
No meio dessa balburdia, meu amigo, não pude deixar para trás a minha excêntrica família. Tive que dar os banhos nos meninos, ajudar o Thommy. O senhor Raio de Sol ficou deprimido quando soube que a sua irmã iria vender a casa onde ele cresceu. Antes que ele não tivesse mais acesso ao lugar eu fui com ele ao encontro do seu passado. A casa onde o senhor Raio de Sol viveu a sua infância. Construída pelo seu próprio pai. Com lágrimas nos olhos o encurvado senhor de setenta anos e muitos ataques epiléticos, agradeceu e me abraçou.
Hoje é feriado por aqui. Dia da ascensão de Jesus. Gabriel está na cama e eu, surpreendentemente, tive tempo para escrever!

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Síndromes de Down não são fofinhos

Sei que o título parece um tanto provocativo, mas imaginem a seguinte cena: Eu com Katie, uma mulher de quarenta anos, alguns cabelos grisalhos, síndrome de Down. Sábado de manhã, estávamos em um salão de beleza aguardando pacientemente a nossa vez. Líamos alguns artigos políticos e debatíamos a situação nada fácil da Ucrânia no atual momento. Quando chegou a vez de Katie ser atendida, eu fiquei compenetrado em minhas leituras e ela, feliz, foi cortar os cabelos. Terminada a sessão, minha amiga e moradora aqui da comunidade, desembolsou vinte euros e quitou o serviço. Eis que a cabeleireira sorridente, depois de exclamar um “que coisa mais fofa!” apertou-lhe a bochecha, retirou um pirulito de um pote de guloseimas e lhe ofereceu como se fosse ela uma criança de seis anos. Sem jeito, Katie que é muito educada, pegou o doce, agradeceu, e saiu, como se pode pressupor, arrasada.
Claro que as pessoas não tecem esse tipo de comentário porque são más, elas somente enxergam um tipo de beleza infantilizado, vendido pela nossa sociedade. É uma atitude ingênua, mas que, como no exemplo acima, magoa. Lembro que, quando aqui cheguei, levei um cesto de vime na cabeça porque falei para uma senhora com síndrome de Down e mais de sessenta anos, quando esta estava a passear… “Que serzinho mais bonitinho, parece uma fadinha”. Bom, a idosa indignada, me lançou o objeto e com o dedo em riste me atacou: Você me respeite rapaz, eu poderia ser sua avó!
Desde que passei a viver com minha excêntrica família tenho feito pequenas descobertas, minúcias cotidianas que me deixam próximo daquilo que eu entendo e chamo de dignidade. Algo muito simples é o fato de que todo ser humano guarda em si o desejo de ser levado a sério, mesmo que isso não seja evidente. Há gente que parece gostar de ser tratada com uma certa dose de infantilidade. Na verdade foram educadas para isso ou estão apenas acostumadas a serem assim. Quando, porém, elas assumem a consciência da sua situação, sentem vergonha de serem tidos como meros bibelôs dos que se julgam “normais”.
Bebês ou crianças pequenas são bonitinhos, fofinhos, meiguinhos e não alguém com quarenta anos. Não se chama um homem de meia-idade que você encontra na rua de lindinho. Coloquem-se na posição de alguém que vai ao dentista e de depois de ter suportado quieto o martírio que é estar naquela maldita cadeira por mais de duas horas, ser aclamado com palmas e receber como recompensa, pela bravura, um balão do Zé Dentinho. Infelizmente eu já vi isso acontecer com um dos senhores de quem eu cuido. No carro, o sobrevivente da Segunda Grande Guerra, me olhou e comentou meio sem jeito… “Acho que a doutora pensou que eu fosse um palhaço e não simplesmente alguém que precisa de ajuda para algumas coisas.”
O texto de hoje termina com uma foto do ator e pedagogo espanhol Pablo Pineda. Para saber mais sobre ele clique aqui.

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