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Os detalhes de Téo

Com minha família aprendi que a dor do outro nunca será a minha dor. Eu posso, no entanto, me aproximar dela e, com esforço e perseverança, tentar compreendê-la no intuito de minimizá-la.
Teodoro é um dos moradores aqui da casa Jawlensky. Dizem que ele é autista, para mim, ele é apenas o Téo. Cultivamos uma amizade de dez anos já.
Lembro que foi ele que me conduziu até a lavoura. Ali, no cumprir das horas, juntos a colher batatas, beterrabas, cenouras, trabalhamos até a exaustão.Com ele aprendi, além de sentir orgulho de comer os legumes e as verduras que nós juntos plantamos, a estar atento aos detalhes mais infinitesimais.
Para Téo tudo tem uma ordem própria e o rompimento de tal estrutura lhe gera uma dor incontrolável. Muitas vezes esmurra paredes, bate no seu próprio rosto, chora, berra.
Eu tento, em minhas próprias limitações, encaixar, assegurar e adaptar o nosso pequeno mundo a sua própria lógica.
Antes de sentarmos à mesa eu confiro minuciosamente se tudo está de acordo com o padrão estabelecido por ele: Guardanapo, prato, tigela para o iogurte, colher de chá, caneca, colher de sopa e faca.
Nunca fui atento aos detalhes. Hoje, eles são parte da minha vida, porque sei a catástrofe que a falta de uma colherzinha pode fazer no dia do meu amigo.

Injusta Justiça

Quantas vergonhas cabem embaixo de uma toga? Quando vejo o que hoje acontece em nosso país, a imbecilidade e parcialidade de alguns juízes, sinto uma tristeza infinita.

Fico pensando na legião de injustiçados ao qual nenhum doutor de martelinho estúpido vai escutar. A nossa porcaria de justiça de cega nada tem. Aprendeu sim, com vendidos magistrados, a ser seletivamente surda.

É pena que os bons profissionais, como sempre, pagam pelos maus. A parte podre do mundo pós-moderno é, lamentavelmente, assim.

Houve um dia em que eu estava no parque a brincar com meu filho. Ouvi um sujeito falar português. Um conterrâneo, pensei com alegria. Puxei conversa. Tagarelamos sobre verão, paternidade e, enfim, sobre a nossa profissão. Quando perguntei o que fazes? O sujeito vermelhou e, com certa vergonha, respondeu em voz baixa… Sou juiz.

Putz! Vociferei. Parecia um bom homem, preconceituei em pensamento. Depois disso, morreu o assunto.

Em silêncio vimos nossas crianças se divertirem. Ele cabisbaixo e eu tentando, a todo custo, me livrar do paradigma pejorativo que a tal profissão carrega. Passaram-se mais ou menos trinta minutos até que ele se foi. Não se despediu, apenas pegou o menino pelo braço e sumiu atrás de um centenário Carvalho.

Etiquetas

Minha excêntrica e enorme família produz, num único dia, mais de trinta quilos de roupa suja. Somos, ao todo, vinte e cinco pessoas morando sob um único teto.

Ali pelas oito da noite, depois das crianças dormirem, desço até o submundo da casa Jawlensky (como vocês sabem, é o nome da casa onde eu moro). No finzinho do porão, depois do quarto das máquinas, da despensa das bebidas, do quarto dos frigoríficos, da estalagem onde moram meus porquinhos da Índia, adentro em nossa lavanderia.

Os cestos estão, normalmente, cheios. Eu sorteio as peças. Lã, algodão, viscose, linho, roupa colorida, roupa clara, etc. Cada indumentária é um objeto único e necessita ser lavado como tal.

Para separar tudo corretamente é necessário ler minuciosamente as indicações contidas nas etiquetas.

A cada etiqueta, um mundo a ser descoberto… A temperatura ideal de lavagem: 30, 40, 60 ou 95 graus. Pode-se utilizar produtos à base de cloro? Como é com a secadora? É possível passar à ferro? Enfim, meras informações técnicas, mas com enorme efeito.

Confesso que no começo eu confiava na minha intuição. Simplesmente me recusava a ler.  Com o passar do tempo, fiquei sem calças e as cuecas que eu conseguia vestir transfiguraram-se em cuecas fio-dental. Mas como escreveu Sartre… O inferno são os outros! Com tantos encolhimentos e tingimentos involuntários, minha família se rebelou e passou a querer meu couro. Bom, antes de ser, como Adão (que por sorte não necessitava de vestimentas) expulso do paraíso, passei a ler as ditas.

Hoje, como sempre, já joguei algumas dezenas de camisetas, calças e moletons nas lavadoras. A Luz pálida não inibe minha sonolência e lentidão. O tédio me consome. As etiquetas não trazem nada de novo. Uma delas, no entanto, faz eu romper a inércia, tira-me da modorra na qual estou submerso…

 

Apenas lavar a frio.

Não secar na secadora.

Não passar a estampa.

Jamais bater em Pandas.

A vida e as suas surpresas.

A gente (quase) voltou

Em poucos dias embarcarei, junto com Simone, Gabriel e Helena, em uma viagem aos confins de minha própria existência.
A volta ao lar mexe com os ânimos, desperta sentimentos adormecidos, reverbera expectativas.
A euforia se mistura ao medo. A insegurança propagada pela Timeline do Facebook faz brotar, em meu coração, um número sem fim de perguntas, entre elas, a que mais me consome: Estaria o Brasil “involuindo“?
As narrativas telefônicas dominicais com meu pai exortam a violência não mais controlável. O país tropical teria sido, em vez de abençoado, abandonado por Deus?
Poderei eu, com minha família, caminhar na rua sem ser assaltado, estuprado, raptado ou morto?
Poderei eu, enquanto brasileiro nato, expor livremente minhas opiniões e argumentos, sem o medo de represálias que atentem contra minha integridade física?
Poderei eu, em um entardecer paradisíaco da Ilha da Magia, fechar os olhos e sentir o frescor do Atlântico acariciar as minhas bochechas e deixar as mais variadas partículas olfativas adentrarem minhas narinas deixando-me com os olhos em água por lembrar o quanto, algum dia, amei estar ali?
Poderei eu, com meus filhos, sentar a sombra da imponente figueira na histórica praça XV e ali contar-lhes como um dia eu conheci a mãe deles, sem o medo de ter uma arma apontada para a minha cabeça?
Poderei eu, como sempre fiz, distribuir sorrisos aqueles que não conheço, sem com isso ter a sensação de que, algum maluco do outro lado da rua, se revolte e queria partir a minha cara ao meio?
Sei que meus pensamentos são toscos, embalados por um mundo sensacionalista que tem em si o prazer absoluto de disseminar o pavor; incorporado facilmente por pessoas como eu… No entanto é lá, e, somente lá, que em alguns dias eu quero estar.

van gogh

O segredo … dos alemães

Infelizmente tal post nada tem a ver com a interessante página compartilhada todos os dias milhares de vezes no Facebook.
Eu falo somente dos alemães e seu surpreendente crescimento pós-guerra. Tanto econômico, quanto, em partes também, cultural e social.
Há praticamente uma década que eu moro no país de Brecht e, evidentemente, estou sempre a fazer comparações infundadas, prejulgamentos, análises imprecisas da cultura que escolhi para passar parte da minha vida.
Outro dia, em um desses botecos chiques, na cidade de Weimar, lugar de Nietzsche, Schiller, Goethe, entre outros CDF´s, resolvi tomar uma cerveja e curtir o entardecer na praça central da cidade e, com Simone, em divagações nada filosóficas, acabei por perguntar-me o motivo do abismo social entre o país de Walter Benjamin e o de Paulo Freire…
Qual seria o segredo dos alemães?
Em meio a infinitas indagações e teorias sem base alguma, levantei o caneco e o destino revelou aquilo que Weber, em sua sociologia, escondeu…
O essencial para o desenvolvimento completo de uma nação é, como comprova o documento “porta copo”, a distribuição gratuita de cerveja, inclusive para as crianças.

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