As partes mais saudáveis do suíno

Fui julgado e condenado! Por sorte não foi a excelentíssima senhora Hardt a emitir minha sentença, pois ela não saberia diferenciar o Peterson do Quadros. Muito menos o senhor Moro que transformou a Metamorfose Ambulante do Raul em um hino do mau-caratismo, pois tudo que diz, depois desdiz, fala o oposto do que havia dito antes e assim vai sendo escrita a trajetória desse sujeito pusilânime que entrará para os anais da História como uma das maiores vergonhas do nosso já tão caduco judiciário. 
Na verdade eu fui julgado e condenado no exterior e na pior de todas as instâncias, a saber, a instância popular alemã, localizada, como sempre, em uma mesa de bar. Me perguntaram: Ei Brasileiro, o que se come no Brasil? 
Orgulhoso, detalhei em minúcias, todos os passos de um bom churrasco, falei de papaia com cassis, pão de queijo, farofa, aipim, carne de sol… Todos se mostravam interessadíssimos e, sem exagerar, pareciam estar com água na boca. 
No intuito de triunfar no final, me embestei em contar sobre o genuíno prato brasileiro: a feijoada. 
Até então, todos sorridentes. Parece que sentiam o lavar dos grãos, a panela de pressão a zunir, o barulhinho da cebola fritando, o focinho do porco, as orelhas, o rabo. 
De repente, a transfiguração dos rostos. Do sorriso ao nojo em fração de segundos. 
Que horrível! Que porcaria! Que insanidade! Aqui na Alemanha comíamos isso nos pós-guerra, agora não mais. Somente as partes mais saudáveis do suíno são vendidas. 
Cabisbaixo, com certa vergonha, tentei remendar, dizer que faz tempo que eu troquei a carne pelo brócolis e que o prato também fica delicioso com vegetais. Nada adiantou, todos levantaram e foram embora. 
Passei dias me sentindo o mais primitivo dos seres. Um homem das cavernas que um dia comeu a orelha de um porco e chupou os ossinhos do rabo. 
Um alemão não faria isso! Comeria uma bisteca orgânica. Puro engodo! Minha absolvição veio hoje ao fazer compras. Olhando as prateleiras do Supermercado me deparei com algo que os alemães comem e que, ao meu olhar, está muito além da orelhinha suína… Espetinho de rins de porco, ao molho temperado, pronto para ser servido. 
Bom, comprei uma lata e estou indo para o bar pedir explicações sobre “as partes mais saudáveis do suíno”.

A culpa é desses maconhados sem-vergonhas

Maconhado é, sem dúvida nenhuma, um superlativo. Maconheiro é adjetivo pejorativo miúdo. Coisa de “estudante universitário”. Se o sujeito for preconceituoso como parte da minha parentada, por exemplo, vai completar a frase com um típico “de humanas”, depois vai soltar uma risada. Já o maconhado não tem mais jeito. Transcende o mero fumar maconha. É alguém possuído, um meliante, um destruidor da moral e dos bons costumes.
Tenho um tio, do tipo que gosta de beber, cozinhar (metido a gourmet) e falar mal dos outros, que vive na varanda a olhar para a rua e não hesita em rotular os pobres transeuntes de maconhados. Segundo ele, o mundo está perdido. Tudo culpa, lógico, dos maconhados.
Comer na casa dele é aguentar a televisão no volume máximo em algum programa sensacionalista recheado de gente que matou gente. Você mastiga o pão ouvindo o apresentador tendo um ataque de cólera, pedindo para “botar o vagabundo na tela”. Meu tio vai ao delírio, parece eu ao ver o Avaí fazer um gol. Ele abre os braços, gesticula, aponta o dedo para tela e sentencia “tá vendo, tá vendo, eu disse, é maconhado!!!”
Quando seu candidato ganhou a eleição, ele chorou de alegria. Parecia que tínhamos ganhado a Copa do Mundo. Dormiu abraçado ao seu trinta e oito de estimação, pois agora, como me disse, os maconhados seriam escorraçados de vez do planeta.
Meu tio é também um anticomunista, porque comunista é (em negrito) maconhado. Karl Marx foi maconhado (ponto de exclamação proposital)! Lenin foi maconhado! Chomsky ele não conhece, mas eu, seguindo o seu pensamento, sei que tenho a autorização para, em seu nome, dizer: é Maconhado! Frei Betto, Leonardo Boff, Madonna, tudo, mas tudo mesmo… Maconhado! Manuela D´ávila, uma maconhada igual a Dilma. E o Lula? tá na cara meu… Maconhadasso, por isso que tá na cadeia, babaca!
Meu tio, por sorte, não tem Facebook nem navega pela internet, recebe somente as verdades proferidas pelos grupos de Whatsapp. Quando, pelo telefone, fala comigo sobre política, eu fico quieto, mudo de assunto, pergunto se o Floresta ganhou do Vera Cruz. Mas ele é insistente. Chega um momento em que eu peço para conversarmos sobre outra coisa, então vem algo do tipo “E aí Petson, muito maconhado na Alemanha?”
Eu confesso, tenho vontade de chorar. Ontem liguei para ele e contei que estou indo para o Brasil. Ficou felicíssimo, me pediu até uns presentes. Perguntei o que ele queria… Ah, respondeu ele, uns chás, chocolate e sei lá, algo para a cozinha…
Hoje, rodei meio estado, só para conseguir os tais produtos. Estou aqui na esperança que o meu tiozão sessentão, direitista e cidadão de bem aprecie os presentes.

Chá
Chocolate
óleo de cozinha

O celular desgraçou a minha vida

Acho fabuloso o verbo desgraçar. Embora seja sempre utilizado de forma trágica, a palavra, tal como é comumente empregada, guarda em si, pelo menos para mim, algo cômico.
Depoimentos como: a cachaça, ou, aquela mulher, ou, aquele homem, desgraçou a minha vida são comuns nos noticiários. Também uma caneta ao vazar na camisa antes da entrevista de emprego, uma pizza quentinha e deliciosa ao cair no chão sujo da sala, um vinho ao manchar um caríssimo vestido…Tudo pode desgraçar vida de alguém.
Bom, se eu pudesse escolher algo que tenha desgraçado a minha vida, eu diria que, no meu caso, foi o celular.
Celular é uma tornozeleira eletrônica. Vibra a toda hora… O dia inteirinho, mensagens do tipo: Onde você está? O que estás a fazer? Podes vir aqui um minuto? Já está terminando? Já chegou? Tudo bem? Por que você não responde? Responde! E assim é durante os 86.400 segundos que compõem o meu dia. São centenas de milhares de mensagens. Malditos banners a infestar a tela do celular, tal como uma praga de gafanhotos a devorar uma safra inteirinha.
O tempo agora é milimetricamente cronometrado (que combinação de palavras!). São quarenta e cinco minutos para ir da minha casa até o supermercado e voltar. Se demoro quarenta e seis minutos, o bicho vibra sem parar, solta seus banners de terror psicológico tal como uma metralhadora: Já chegou? Quanto tempo falta? Você está demorando! Bom, se escapo ao protocolo e entro em dúvida entre Brócolis ou couve-flor, já era.
Eu tento justificar o atraso tirando fotos comprobatórias do ato, ou pior, excedendo o limite de velocidade na volta para casa.

Infelizmente os pardais e as lombadas eletrônicas não perdoam. Estão ali justamente para agir impiedosamente sobre o nosso medo.
Quando, ao dirigir, na impossibilidade de responder um WhatsApp por risco de morte, você pensa que acabou, um velho método entra em ação: o telefonema.
Logicamente os carros modernos foram projetados para que aparentemente não haja escapatória. A porcaria do Bluetooth faz uma interconexão entre o telemóvel e os alto-falantes, além do mais, um maldito botãozinho acoplado ao volante não deixa margem para desculpas.
Quando tudo parece perdido, quando aquele wrrrft, wrrrrft, wrrrrft entra na corrente sanguínea e te deixa suando frio, tirando a sua concentração em uma estrada infestada de motoristas inconsequentes, pedestres imprudentes, semáforos, cruzamentos, ciclistas, você estica a sua mão direita trêmula e encharcada, tendo nela a única esperança de sobrevivência… O aparelho reconhece a sua digital e wrrrrft, wrrrrft, wrrrft você se encontra com Santos Dumont, agradece em oração a sua brilhante invenção e aperta de vez o milagroso botão da paz…

Eu critiquei o Silas e, por pouco, sobrevivi

Boechat morre de forma trágica. Qualquer ser humano com um pingo de decência se comoveria, mas isso é algo que nosso ódio pelo outro não nos permite. Segundo seguidores do pastor Malafaia, Boechat morreu porque mexeu com um ungido de Deus. Lembrei que certa vez também sofri por tê-lo criticado.
Era uma segunda-feira sombria. O avião que deveria chegar em Lisboa teve que fazer um pouso de emergência em Valência. Na noite anterior eu havia visto um desses vídeos imbecis que o iluminado, abençoado, honesto e bom samaritano insiste em postar. Acabei tecendo uma pequena crítica a sua postura, a partir de então, fui perseguido pela justiça divina.
Voltando ao pouso de emergência… os outros ocupantes da aeronave foram levados para um hotel cinco estrelas enquanto eu, sob o sorriso cínico do comissário de bordo, para um albergue estilo Delicatessen. O jantar, uma espécie de guisado em que não se reconhecia ingrediente algum, teve sobre o meu aparelho digestivo, o poder destrutivo de uma bomba atômica. Eu suava frio. Sentado no vaso sanitário minha barriga se contraía em cólicas vorazes. Uma forte diarreia transformou meu ânus em um canhão de água. Eu vomitava sem parar. Para piorar, tive “febrão” e, como se não bastasse, alucinações. Vi fantasmas, o próprio Silas me apareceu a gargalhar como um lunático. Eu tive muito medo, comecei a chorar e a pedir perdão.
Foi quando, prostrado diante de mim, o comissário de bordo, me adverte: Perdão é bom, mas o dízimo é melhor.
Em vão procurei dinheiro em espécie na carteira. Eu soluçava desesperado. Ele riu, estendeu-me a máquina e perguntou: crédito ou débito?
Depois da senha e da aprovação, imediatamente se dissiparam a diarreia e o vômito. O homem agradeceu e sumiu no horizonte. Eu, pobre, tive que caminhar e pedir carona até chegar em Lisboa. Isso tudo feliz da vida por estar vivo.
Moral da história: Jamais critique o bom pastor e seus comparsas.

Fonte: https://veja.abril.com.br/economia/maquininha-de-dizimo-organiza-fluxo-financeiro-de-igrejas/

Putz, que semaninha mais triste

Tem semana que não dá. Parece que se divertir é um pecado. Hoje vou trocar o bate-papo descontraído para ficar só em pensamento e oração. 🙏
O Rio despencou pelas encostas. Acabou por se afogar em chuvas, lágrimas, desespero e mortes. 😔
O jovem a instalar um ar-condicionado, foi confundido com bandido, levou um tiro e quase morreu.😔
Os dez meninos do Flamengo morreram queimados enquanto dormiam. 😔
Na comunidade de Fallet-Fogueteiro, também no Rio, treze pessoas foram mortas a tiros. 😔
Esta semana, certamente outras pessoas também perderam a vida de forma injusta, mas hoje não quero culpados, quero ficar um pouquinho em silêncio por aqueles que se foram e a desejar (sei que é utopia) que esse tipo de coisa não aconteça mais.
Por sorte, na lei da compensação, nem tudo foi tristeza. Nosso excelentíssimo Presidente, por exemplo, após muitas “seções” 😂 de fisioterapia já está a comer papinha e logo estará apto a fazer arminhas com as mãos para desespero dos bolcheviques.