Dias Chuvosos

Sempre ouvi dizer que os dias chuvosos são tristes enquanto aqueles em que o sol brilha em um céu anil são alegres e gloriosos.
Não concordo com essa lógica porque sempre fui muito mais feliz com os gélidos pingos de Deus em minha cara. Nas épocas em que andava de ônibus em Florianópolis, muitos olhavam com desdém para minhas lustrosas botas Sete Léguas que mantinham os meus pés secos, pois o resto pouco me importava. Os pés são o termômetro do corpo.
Hoje, acordo cedo e, nos poucos dias que fujo da comunidade,  me regozijo em estacionar o carro perto da floresta, abrir um livro, tomar café com leite em copo de papelão e ouvir o tamborilar da chuva.

Hibernação

Não! O Vinhetas não morre, ele hiberna. É uma estratégia (in)consciente de fazer com que todos me esqueçam, simplesmente para eu me reinventar de forma livre.
O frio, mesmo com a proximidade do verão, mantém-se firme no Morro dos Pássaros.
O clima de férias nos chega aos poucos. A lista de afazeres míngua em noites e madrugadas entupidas de números, formulários e documentos.
Vaga-lumes dançam nos jardins do palacete e eu não posso vê-los porque estou no porão da casa Jawlensky, na frente do computador, a fazer contas que não são minhas!
Pelo menos, muito mais por obrigação do que por vontade própria, comprei a passagem e logo vou, com a família Buscapé, para o lugar que um dia chamei de lar.

O estatuto do parquinho

Quem tem filho sabe a importância do parquinho na formação social da criança. Não, não sou pedagogo, pelo menos dos meus filhos não! Sou pai e ali, em meio a gangorras, escorregadores e caixas de areia, me encontro em dias ensolarados, nebulosos e também chuvosos. Parquinho é integração!  Não apenas crianças com crianças, mas também adultos com adultos e, por fim, adultos com crianças. Aqui na Alemanha, nesta última interação, o cuidado precisa ser redobrado. Estou a falar de nós, imigrantes de coração aberto e adeptos aos elogios sobre a boniteza dos outros pequenos. O abraço entre meros conhecidos é proibidíssimo e pegar uma criança no colo, que não seja a sua, pode ocasionar uma ida involuntária à delegacia. Todo mundo tem um amigo ou amiga que passou por isso. 
Aqui na comunidade, felizmente,  as coisas são um pouquito diferentes. Somos um povoado afastado e convivemos praticamente uma década e meia juntos. Tivemos nossos filhos na mesma época e, agora, eles dividem o parquinho. 
Eu confesso em português, lógico, que o parquinho me causa náuseas. Frequento-o todos os dias simplesmente porque sou pai e as crianças ficam a me aporrinhar para ir lá brincar com os outros. 
Tudo começa com um aborrido small talk para utilizar um termo moderninho. Qual é a última daquela série do Netflix? Putz, eu que não assisto séries na bendita plataforma me sinto excluído. Depois de falar do tempo; do almoço e de alguma tragédia, incomparável com aquelas que assistíamos à mesa ingerindo o alimento enquanto a televisão ligada transmitia algum corpo sem vida jogado em uma vala,  vem os discursos ufanistas sobre o que cada criança já consegue fazer. Um conjunto de superdotados. Eu fico quieto. Quando me encurralam, digo apenas que os meus filhos respiram genuinamente bem e oxigenar o cérebro é tudo! O vizinho do lado esquerdo ri amarelo enquanto o direitista fica pensando na resposta. 
Outro dia constatei a precisão alemã na caixa de areia. A vizinha da direita tirou a pazinha do meu Benjamin sob o argumento de que ele já estava de posse daquela ferramenta de plástico azul fazia seis minutos quando o correto era cinco. 
Pasmo, perguntei de onde ela tinha tirado aquele disparate. Todos me olharam atônitos,  ao que o esquerdista, quer dizer, o vizinho da esquerda, me respondeu: Está escrito no estatuto do parquinho! 
Construímos juntos o parque e eu não tinha ideia de que havíamos votado ou redigido um estatuto. O fulano da direita foi então até a sua casa,  voltou com um punhado de folhas amareladas e me explicou que o estatuto que rege os parquinhos é um documento de 1952, válido em todo o país da salsicha. 
Bom, agora sei que os meus pequenos têm o direito de balançarem-se dez vezes antes de ceder lugar a outra criança.

Sobre Prestes e Lopes

Depois de quatro semanas, reativei o dito Instagram. Nesse meio tempo, acabaram-se as férias; os concertos de fim de semana voltaram com força total, o outono despeja, em mim, toneladas de folhas amarelas, vermelhas e roxas. Nas quatro semanas que fiquei sem ver as fotos daqueles que amo, consegui ler o livro de Daniel Aarão Reis sobre Luís Carlos Prestes. Bom, vale a pena a leitura? Sim, no meu caso valeu, e muito! A lendária marcha, no início do livro, após uma curta explanação sobre a infância e juventude desse fantástico ser, me levou para os cantões mais inóspitos do nosso amado Brasil. O livro é muito mais jornalístico do que poético, mas isso não tirou a magia daquela que, talvez, foi a maior saga da nossa História. No entanto, uma pergunta tola ficou em meu coração. Desde o início, talvez pela narrativa do autor, era presumível o fracasso da marcha, então, por que eles marcharam?
Tem uma frase de Galeano que me acompanha e, talvez, explique o porquê… A utopia, diz ele, está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar. 
Aliás, se colocarmos os pingos nos is, a vida de Prestes foi uma sucessão ininterrupta de infortúnios políticos, mas o carinha mirrado não desistiu, ele persistiu no sonho de um Brasil mais justo e, depois que se “converteu” ao comunismo, quis também um país sem classes. Não sei se ele conseguiu fazer muito, mas ele desejou e o seu desejo transformou-se em luta, uma luta que, durante anos, foi travada lá onde o vento faz a curva, num país chamado Rússia. Foi Prestes que fez do PCB um partidão e, quando este foi convidado  a se retirar, o Partido Comunista Brasileiro se minusculizou. 
Enfim, independente da escolha política de cada um, o livro de Aarão é fundamental para a compreensão da nossa história política. Uma das coisas que me encanta em ler livros é a semente da curiosidade que nos lança em outras jornadas… Confesso que, entre outros, fiquei curioso para saber mais sobre Leonel Brizola. Em breve, quem sabe nas férias de inverno, encantar-me-ei com Clóvis Brigagão e Trajano Ribeiro; assim, quem sabe, compreenderei mais as escolhas de meu “Bruder” Fernando Lopes.

A pequena cidade e o rio de água salgada

Acontece todo ano. Na maioria das vezes é inverno. Dessa vez, como agora tudo ficou diferente, ainda mais depois que eu  deletei o Insta e o Face, escondi-me aqui no meio de um outono.

Kappeln é uma cidade pequena onde o mar parece rio. Esse rio que também é mar chama-se Schlei. Na primeira vez que aqui estive, inclinei-me feito uma girafa e bebi água diretamente da margem do rio, quer dizer, do mar.  A água era, pasmem, salgada!  As gaivotas saíram caminhando desengonçadas a esconder o riso. Gaivota não é bicho de água doce! Meu ceticismo me fez corar.

Aqui tem um  pequeno porto que conta com poucos barcos. Alguns de pescar peixes, outros de pescar turistas. 

Foi com um desses últimos que cheguei até o farol de não sei o quê. 

É uma ilha que não é ilha. Chamam de ilha porque é uma reserva e não se pode caminhar até o farol. Dizem que os passos, principalmente dos turistas, incomoda os pássaros. Disse-me o simpático verdureiro da cidade. Tirei uma foto do meu filho no farol. Bom, como agora não tenho mais Instagram, inseri-la-ei-a aqui embaixo.

Outra coisa que chama atenção na cidade é a ponte que se abre. Todo dia se forma uma “multidãozinha” de turistas, como eu, para ver a ponte se abrir. Um ou dois veleiros atravessam o canal e depois as partes levantadas da ponte descem e se juntam num espetáculo da engenharia. O trânsito então flui como se aquele asfalto nunca tivesse se dividido. 

Tirando isso, há um moinho de vento em Kappeln. Em um inverno, há cerca de dez anos, resolvi brigar com ele, na verdade é uma menina, Amanda se chama. Na época, não sabia disso. Pensei se tratar apenas de um gigante. Uma das hélices me pegou de surpresa pelo colarinho e me atirou longe. O conhecimento tem que ser empírico.

Perto do moinho há uma pequena fábrica de chocolates e, perto do porto, um casarão abriga um cineminha antigo. Apenas uma sala a passar repetidamente o novo 007. 

Amanhã terminam-se minhas duas semanas de férias no Mar Báltico. Vou-me embora e as gaivotas então podem rir dos outros trouxas que não acreditam no rio de água salgada.